O alzheimer levou embora nomes, datas e todas essas coisas que a gente julga importante saber pra se encaixar no ideal de sanidade instituido pela sociedade, mas seu sorriso ao ver as pessoas que você sempre quis bem e suas lágrimas de emoção no fim de cada visita recebida (mesmo não lembrando nomes e em que momento da vida se deixou ser cativada por cada um destes) nos mostrava que você ainda tinha muito mais a nos ensinar sobre sentimentos do que qualquer outra pessoa que se considera no ápice da maturidade racional.
Eu não sei porque as coisas tiveram que acontecer desse jeito, mas talvez você precisasse fazer logo a travessia (pela qual todos nós faremos um dia) pra voltar a fazer o que você sempre fez de melhor antes do alzheimer: cuidar (agora espiritualmente) dos seus filhos, netos, sobrinhos e de todos os que você acolheu apesar de não ter laços de sangue.
Nesse momento parece dificil entender, aceitar, acreditar que tudo é continuidade, mas com o tempo entenderemos que a morte não é fim propriamente dito, é só uma separação física temporária: porque você está viva nas nossas lembranças e saudade e num plano espiritual, onde todos nos encontraremos algum dia de novo.
Sei que "a gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar", mas eu lucrei por causa do cheiro de café de tardezinha, das risadas durante as viagens até Sergipe cantando Sidney Magal, dos Natais em sua casa e da lição inaudível de alegria e simplicidade que aprendi ao te ver conduzir sua vida cotidiana.
A senhora é preciosa pra todos que te rodearam, a saudade que sentimos é imensa, mas pra mim valeu a pena por esses 20 anos que convivi contigo. O amor permanece latente.
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